DOCUMENTAR OU VIVENCIAR

A sociedade dinâmica e profundamente conectada em que vivemos tem sido marcada pelo excesso de imagens, fotografias, filmagens, áudios, “prints” e tantos outros meios utilizados para documentar momentos.

Se o registro de imagens importantes nos traz lembranças que gostamos de reviver, sua função está voltada justamente a despertar as memórias daquela experiência concreta que passou pelos nossos sentidos.

Há, contudo, uma diferença marcante nas imagens que são produzidas hoje. Os registros não remetem a vivências, eles acabam se esgotando na imagem em si, pois nos deparamos com uma necessidade de editar nossa vida para o que desejamos que ela seja. “Recortamos” as mais belas imagens, nos lugares mais aprazíveis, no objetivo de eliminar “as partes chatas” do nosso dia a dia, buscando sustentar uma felicidade permanente e irreal. Inclusive, criamos o hábito (quando viajar estava ao nosso alcance) de visitar momentos “de costas”, preocupados com o melhor ângulo para uma selfie.

Também é importante refletir que, diante dos litígios entre pessoas, muitas vezes há uma preocupação em documentar, por imagens ou filmagens, eventual alegria ou tristeza, sem que esse registro esteja inserido em um contexto concreto que acolha esta imagem. A utilização de imagens em desencontro com a realidade, em demandas judiciais, tem sido observada pelos integrantes do Poder Judiciário e seus auxiliares (peritos, assistentes sociais, entre outros) e seu excesso acaba evidenciando uma preocupação para simplesmente “produzir a prova” (que por vezes não se sustenta), sem efetivamente viver a realidade do vínculo em questão.

O acolhimento da realidade, enfrentando as suas alegrias e tristezas da vida, é a forma madura, honesta de construir relações e buscar a vida com ética para com os nossos afetos. Que as imagens produzidas possam refletir o verdadeiro acolhimento.

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